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Entrevista à Revista Açúcar - 11 de março de 2017


Susana Figueiredo - De onde vem o seu gosto pela cozinha? Já me contou que foi porque gosta de comer :)

Mafalda Freitas- Eu adoro comer! É a mais pura da verdade, mas acima de tudo gosto de comer bem. Comer bem para mim significa comida bem feita, saborosa, com bons ingredientes, que nos faça brilhar os olhos e soltar um sorriso logo na primeira garfada. O gosto pela cozinha surge porque muitas vezes o que comia não me satisfazia, na minha família não existe grande tradição culinária. Foi um processo inconsciente associado ao: não gostas… faz!

S.F.- Como e quando começou a cozinhar mais a sério?

M. F. -Não sei bem precisar a idade mas logo que consegui manusear as facas e ligar o fogão (a gás e com fósforos) sem que isso fosse um perigo para a minha segurança, foi-me dada, automaticamente, liberdade para começar a tratar das refeições lá de casa. Teria talvez uns 13 anos. A minha irmã era pequena, o meu irmão não gostava/a de cozinhar, a minha mãe estava na faculdade e o meu pai trabalhava por turnos. Toda a ajuda extra era bem-vinda. Foi assim, quase sem nenhuma obrigação, que comecei a cozinhar mais a sério.

S.F.- Começou por onde? Lembra-se qual foi o primeiro prato que confeccionou?

M. F.- Lembro-me de ser muito pequena (5 anos talvez) e a minha brincadeira preferida era brincar “à cozinheira”. Não se falava em chefes na altura. Hehehe. Entendo agora que era cansativo pois tinha de ter sempre um adulto a ajudar, porque era para cozinhar à séria. Comecei com os famosos “bolinhos de sola seca” que foi o nome que deram às minhas criações de mistura de ovos, farinha, sal e açúcar. Depois eram fritos na frigideira. Uma iguaria! Heheheh. Quanto a um prato que se podesse chamar de refeição lembro-me dos bifinhos à chinesa, com cogumelos, alho francês e açafrão. Lembro-me de ir ao supermercado com os meus pais para garantir que lá estavam todos os ingredientes que a receita indicava.

S.F.- Preparou-se para este "ofício"? De que modo? Andou a investigar nos livros, junto de chefes e em programas de televisão?

M. F. - Não me preparei, pois sempre esteve em mim este interesse, esta paixão se assim posso considerar. O meu momento televisivo preferido eram as rubricas dedicadas à culinária. Fascinava-me, prendia-me ao ecrã. Ficava com vontade de fazer (mas só tinha autorização para o clássico “sola seca”). Lembro-me de pedir no cabeleireiro ou ao dono das revistas Maria, Ana ou Nova Gente que me deixasse ficar com a página das receitas. Depois comecei a comprar regularmente uma revista de receitas “Segredos de Cozinha” e a ganhar cada vez mais entusiasmo. Não era só cozinhar, gostava de cozinhar bem e diferente. Com o tempo o tema comida começou a ganhar mais espaço e a verdade é que tudo mudou com o Jamie Oliver. Foi tão bom! Ele personificava toda a minha ideia de cozinhar: bons ingredientes, imaginação, pratos bonitos e que mesmo sem receitas podem facilmente ser replicados com as devidas alterações. Hoje em dia é tudo muito mais fácil, há programas, há livros, há chefes profissionais que tive o prazer de conhecer e que me têm ensinado muito.

S. F. -Sei que encara a cozinha como uma experiência de tentativa e erro, mas a verdade é que muitas pessoas se deixam frustrar facilmente quando a confecção de um prato não corre bem à primeira...
Acha que qualquer pessoa pode ser bem sucedida na cozinha?

M.F.- A verdade é que se passou em velocidade de cruzeiro do “8 ao 80”. Antes ninguém sabia se estava a cozinhar bem ou mal e hoje em dia o mais normal é ver-se postagens nas redes sociais, na televisão, em revistas da especialidade de bons pratos, de comida bonita. Muitas vezes é inibidor pois os nossos cozinhados não ficam assim “com aquele aspeto”. Importa saber que muitas das fotografais são tiradas por profissionais e a comida é empratada para a fotografia.
Ninguém partilha o que corre mal, nos programas de televisão cortam e voltam a repetir até ficar bom. Nas cozinhas profissionais, por vezes a comida é refeita, isso já devem ter visto.
Eu acho que todos podemos ser bem sucedidos na cozinha, temos de ter apenas em consideração qual o grau de dificuldade a que nos vamos propor.

S.F.- Também já me confidenciou que é uma adepta da cozinha do dia-a-dia, numa versão não enfadonha. É mesmo verdade que podemos preparar pratos fabulosos em pouco tempo, no final de um dia de trabalho? 

M. F.- Aqui entra outros aspetos que importam realçar: a prática, a experiência, o gosto por cozinhar, a  vontade, o tempo…
Mas sim é mais que possível e é ai que julgo dar o meu melhor contributo: ajudar com ideias e sugestões para que possam ter refeições diferentes. Sei cozinhar, gosto de fazer pratos elaborados, dão-me prazer mas todos os dias não é real. Não temos tempo, mas existem técnicas e ingredientes que facilitam as refeições rápidas e saborosas.

S.F.- Se para uns cozinhar pode ser uma espécie de "terapia", para outros (como eu) pode ser um pesadelo :) No entanto, sei que tem convertido muita gente à magia "Mafabulous". A sua filosofia passa também por aí, por inspirar os outros, certo?

M. F. -Fico mesmo comovida e feliz quando amigos, familiares, pessoas das redes sociais, me fazem perguntas ou me enviam as suas criações com base nas sugestões que vou dando. É mesmo isso que me move. Poder ajudar, poder tornar a vida de alguém mais fácil, falo de comida claro. Quando comecei a partilhar as minhas receitas até tinha vergonha. Pareciam-me tão pouco dignas e tão básicas que as pessoas iam achar que era uma vergonha partilhar uma receita de sopa, por exemplo. A surpresa começou aí, a proximidade e os cometários que se foram fazendo, o quebrar barreiras de que toda a comida tem de ser muito elaborada e tecnicamente de elevado nível. De todas as mensagens que recebo, e que agradeço, houve uma que me marcou: “obrigada pelas suas partilhas, o meu marido voltou a cozinhar. Estava desinteressado mas a sua simplicidade motivou-o. Tenho refeições dignas de chefe. Obrigada”. Tinha começado a fazer as postagens há pouco tempo. É muito gratificante(suspiros).

S.F- Acho a maioria dos livros e programas de culinária bastante desinteressantes, porém, dou por mim a ler os seus posts e confesso que começa a nascer em mim alguma vontade de me aventurar na cozinha. Conte-me, qual é o seu segredo?

M. F. - O meu segredo não posso contar porque é segredo, ehehheeh. Em primeiro lugar agradecer e ficar contente por manifestar essa sua vontade que espero que seja posta em prática brevemente.
Eu cozinho e partilho quase no imediato porque não uso receitas e se não ponho logo pode-me esquecer. Partilho da mesma forma que cozinho, com emoção, com alegria e como se estivesse a preparar o prato ao mesmo tempo que falo. E como fica bom fico com vontade de passar a mensagem: façam, façam, que vão ver que bom que é, e é fácil e não custa assim tanto, experimentem, vá lá!!!!. Este foi um pensamento posto em palavras.

S.F. -Na conversa que tivemos definiu a sua cozinha como uma cozinha de verdade, autêntica. É a Mafalda que ali se revela, em cada prato? Cozinhar é mesmo um acto de entrega e amor?

M.F. -É! Sou eu, cozinho o que gosto da forma que gosto e para quem gosto. Cozinhar para alguém é a forma mais pura de se demonstrar amor. Recorro muito aos ingredientes frescos, e tenho cuidado na forma como os cozinho. Tudo o que ponho no prato sei que está bem feito, fui eu que fiz e tive esse cuidado.

S.F. - Dicas simples para quem morre de desgosto por não saber cozinhar, mas ainda tem alguma esperança de surpreender a família e os amigos com um prato fabuloso? :)

M.F. -A dica mais importante é fazer algo que gostamos, ou seja, isto sabia-me bem comer. Não ir atrás de receitas que não nos digam nada e que só de olhar, à partida, o risco de não saber fazer seja elevado. Não complicar, muita coisa no prato não quer dizer que seja bom. Não misturar tudo o que temos em casa para dar um ar requintado. Começar por receitas mais simples. Eu dou boas sugestões, hehehehe.

S.F.- Para terminar, o que podem esperar de si os leitores da Açúcar?

M.F. - Para quem já me conhece sabe que não dou receitas, falo sobre como fazer uma determinada refeição. Espero continuar a inspirar quem me lê e ajudar a tornar refeições práticas em momentos de prazer. Vou partilhar convosco histórias e curiosidades sobre este mundo maravilhoso da Comida.

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